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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Metade

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.
Oswaldo Montenegro

Ausência



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinicius de Morais
Ah é, adoro HIM.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Eu morri.



Eu morri e nem percebi
Morri sem ter filhos,
Morri sem sorrir,
Morri como os que morrem
Dormindo no avião que cai,
Como morrem as flores,

Pisoteadas de repente,
Eu morri sem dor,
Sem nem mesmo estar doente,
Como quem morre de amor,
Ou como quem nada sente,
Morri sem velório,
Sem missa de corpo presente,
Sem enterro,
Sem ritual,
Eu morri, simplesmente,
Morri sem último pedido,
Sem ultimo direito,
Sem ultimo beijo,
Sem ultimo delírio,
Só morri e mais nada,
Como um indigente na estrada,
Não tive viúva,
Não tive lágrima,
Nem desespero,
Eu morri e ninguém percebeu,
Não tive despedida,
Ninguém me disse adeus,
Não era tarde de domingo,
E nem manhã de verão,
Não tive flores me cobrindo,
Nem sete palmos de chão,
Não tive salva de tiros,
Eu só morri,
Morri e nem percebi,
Morri,
No exato momento em que te perdi.Eu morri e nem percebi,
Joel.
Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com o sol,
a outra escreve com a lua.
Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.
Uma é séria, a outra sorri;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo,
a outra sonha acordada.

(Roseana Murray)
A sala é enorme. um corpo estacionado ao canto com um copo de gin e um sorriso melancólico. a sala é enorme e se fecho os olhos, vazia. como eu. como tu. se não existes não és memória, e se te lembro, quando o faço - ou porque sim, ou porque mo obriga o coração - é porque há em mim o desejo de me partir ao meio. se te acompanho, se me acompanhas, não interessa, é como ser manhã, ou tarde, ou noite. quero lá saber que tempo faz, ou quem o faz. hoje, e por respeito ao corpo na sala estacionado, ou não, fecho os olhos e reprimo as memórias. a sala é vazia. queria respirar os teus olhos até o serem na minha boca, fechá-la depois, para sempre, tê-los comigo, quentes, na rés da língua. não haveria memória, não. ou haveria nela um par de olhos, enormes, a expiar o amor que trago preso à perpendicular do corpo.

Margarete

Posso fechar-me em segredo,
não é por medo, é amor.
Não me roubem mais palavras,
mesmo as achatadas na garganta
são silenciadas em teu louvor.
Posso nada te dizer,
um olhar não vale tanto?
Que me deixes só sofrer e escrever,
refugiada neste triste manto.
Lágrimas que caem no teu peito ecoam,
sentes os vendaváis? Ouves os meus ais?
Os sentimentos estão na proa.
Sinto-me curvada pela cruz pesada,
sinto-me alma penada, sem entendimento.
Escuta. Dói mas passa.
O que não nos mata torna-nos mais fortes,
se morrer é porque sou fraca.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ei, Jude, não fique mal
Pegue uma canção triste e torne-a melhor
Lembre-se de deixá-la entrar em seu coração
Que então você pode começar a melhorar as coisas.


É...

sábado, 23 de janeiro de 2010

A cada dia que passa mais me convenço de que a felicidade está dentro de mim. Só eu posso alcança-lá, e não preciso da ajuda de ninguém. Aliás, é sozinha que ela se torna ainda mais feliz.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Clarice Lispector

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-
se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que
ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius De Morais

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

' Sempre que houver alternativas, tenha cuidado. Não opte pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso. 
Opte pelo que faz o seu coração vibrar. Opte pelo que gostaria de fazer, apesar de todas as consequências.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O RIO E O OCEANO


Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme
de medo.
Olha para trás, para toda a jornada,os cumes, as montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos
povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar
nele nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.Voltar é impossível na existência. Você
pode apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
E somente quando ele entra no oceano é que o medo
desaparece.
Porque apenas então o rio saberá que não se trata de
desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e por outro lado é
renascimento.
Assim somos nós.
Só podemos ir em frente e arriscar.